Comunhão

Quando Lucas registra as palavras de Jesus na Última Ceia, ele destaca a simplicidade da intenção do Senhor: "Fazei isto em memória de mim" (Lucas 22:19). Paulo, em suas instruções aos coríntios, confirma esse mesmo propósito, repetindo duas vezes que o pão e o cálice devem ser tomados "em memória" de Cristo (1 Coríntios 11:24-25). O foco central não está nos elementos em si, mas no ato de lembrar a morte de Jesus até que Ele venha novamente. Em sua forma original, a Ceia do Senhor era uma refeição memorial simples, conectando os crentes ao sacrifício de Cristo por meio da fé e da proclamação.
A Simplicidade Inicial
A igreja primitiva se reunia para partir o pão regularmente (Atos 2:42), praticando a Ceia tanto como uma expressão comunitária de comunhão quanto como um lembrete visível da obra salvadora de Cristo. A ênfase deles permanecia na lembrança e na proclamação. O pão simbolizava Seu corpo dado, o cálice Seu sangue derramado – o significado ancorado na memória e no testemunho, e não em transformação mística.
A Ascensão da Teologia Sacramental
No entanto, já no segundo e terceiro séculos, a igreja começou a mudar em sua compreensão. Num esforço para enfatizar a sacralidade da Ceia e proteger contra a irreverência, os líderes da igreja empregaram uma linguagem cada vez mais elevada. Com o tempo, a lembrança simbólica deu lugar à crença em efeitos espirituais reais transmitidos através dos elementos. O pão e o vinho deixaram de ser simplesmente símbolos apontando para a morte de Cristo, passando a ser considerados portadores da graça divina em si mesmos. Essa trajetória culminou na doutrina medieval da transubstanciação, oficialmente definida no Concílio de Latrão IV em 1215. Segundo esse ensino, o pão e o vinho são transformados em sua essência no corpo e sangue reais de Cristo, embora mantenham a aparência externa de pão e vinho. A Missa tornou-se não apenas uma memória, mas uma re-apresentação do sacrifício de Cristo na cruz, oferecido repetidamente pelo sacerdote para o perdão dos pecados.
A Resposta da Reforma Protestante
Os Reformadores do século XVI resistiram à visão católica, embora nem todos concordassem entre si.
- Martim Lutero rejeitou a transubstanciação, mas ensinou a consubstanciação, a crença de que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes "em, com e sob" o pão e o vinho. Para Lutero, a Ceia conferia graça porque Cristo estava realmente presente nos elementos, embora sem a transformação metafísica da substância.
- Ulrico Zuínglio, o reformador suíço, voltou-se mais de perto ao propósito original de "lembrança". Ele via a Ceia do Senhor como um ato simbólico de obediência e proclamação – nada mais. O pão e o vinho são sinais que apontam para o corpo e o sangue de Cristo, mas não os contêm nem os transmitem de forma mística.
- João Calvino ocupou uma posição intermediária. Negou a presença física de Cristo nos elementos, mas afirmou uma presença espiritual. Para Calvino, os crentes são elevados pelo Espírito à comunhão com Cristo ressuscitado no céu durante a Ceia, recebendo alimento espiritual pela fé.
Variações Protestantes Posteriores
Anglicanos/Episcopais mantiveram uma visão sacramental, mas permitiram diferentes interpretações de como Cristo está presente. - Batistas e muitos grupos evangélicos enfatizam a Ceia como puramente simbólica – uma ordenança memorial sem graça sacramental. - Metodistas e algumas tradições Reformadas afirmam uma presença espiritual semelhante à visão de Calvino, combinando lembrança com participação espiritual.
Ensino Restauracionista
O Movimento de Restauração, do qual emergem as igrejas de Cristo, tem enfatizado consistentemente um retorno ao padrão do Novo Testamento de simples lembrança. Para essas congregações, a Ceia do Senhor é observada a cada primeiro dia da semana (Atos 20:7), e seu significado é estritamente memorial. O pão e o cálice simbolizam o corpo e o sangue de Cristo e servem como uma proclamação semanal de Sua morte até que Ele venha novamente (1 Coríntios 11:26). As igrejas de Cristo rejeitam interpretações sacramentais ou místicas, afirmando, em vez disso, que a comunhão fortalece a fé por meio da obediência e da lembrança, e não por qualquer mudança nos elementos em si. Dessa forma, a prática reflete a clareza e simplicidade do ensino original de Lucas e Paulo: uma refeição de lembrança, unidade e proclamação.
De volta ao princípio
Desde o relato de Lucas até a correção de Paulo aos coríntios, o propósito original da Ceia do Senhor era claro: é uma lembrança da morte de Cristo e uma proclamação de Seu retorno. A história posterior da igreja demonstra como atos simples de fé podem ser facilmente revestidos de especulação filosófica e elaboração ritualística. Embora a intenção de honrar a santidade da comunhão seja compreensível, o perigo está em obscurecer a clareza do mandamento de Jesus: "Fazei isto em memória de mim." No fim, quaisquer que sejam as nuances teológicas que se possa ter, o coração da comunhão permanece o mesmo. Não é o pão ou o vinho que salva, nem a maneira de sua administração, mas Aquele a quem eles recordam – o Cristo crucificado e ressuscitado. Retornar a esta lembrança mantém a Ceia como Jesus a quis: um memorial vivo que sustenta a fé, une a igreja e nos aponta para Seu retorno.
- Por que você acha que Jesus enfatizou a lembrança em vez do ritual ao instituir a Ceia do Senhor?
- Como a Ceia do Senhor se transformou de um simples memorial em um ritual teológico complexo ao longo do tempo?
- Que lições podemos aprender com a abordagem restauracionista da comunhão em nossa própria prática de fé?
- ChatGPT (OpenAI)
- Everett Ferguson, Early Christians Speak, Abilene Christian University Press
- Justo L. González, The Story of Christianity, HarperOne
- F.F. Bruce, The New Testament Documents: Are They Reliable?, Eerdmans

